7 de outubro de 2011

A volta

Já faz muito tempo

que as palavras não adoçam a amargura interior;
que as letras se materializam em sonhos,
e morrem a cada concreta pulsação.

Já faz tempo que a essência adormeceu.
Que o sangue parou de correr,
e enferrujou.

~

Eis que no rosicler da aurora,
os pulmões resolveram se encher de poesia
ecoando palavras murchas há muito baldadas.

No coração, as cores do íris
se ramificaram em cravo, rosa e lírio
e irromperam peito afora.

As formigas rastejando nas veias,
abrem caminho pro sangue que corre ligeiro.
E a essência, brilhando nos olhos
a aspiração de quem levou muito tempo pra despertar.

19 de fevereiro de 2011

The Girl And The Oak

Era uma vez uma menina e um carvalho.
O carvalho habitava o jardim da menina, e era sua única companhia.
Todos os dias ela sentava-se à sombra da árvore e lia uma história. Todos os dias ela esperava alguma emoção vinda do carvalho. Todos os dias ela voltava pra casa aborrecida.
O carvalho não parecia gostar da menina tanto quanto a menina gostava do carvalho.
E o carvalho derrubava aos montes suas folhas, colorindo de amarelo a grama, a cerca e o telhado. Balançava seus galhos ao sabor do vento, por vezes batendo de leve na janela da menina. A menina, por sua vez, irrompia eufórica pela porta, olhos brilhando e peito cheio de esperança, até perceber que o toque era obra do vento, e não do carvalho. Ele continuava imóvel, alheio à presença da menina. E ela engolia suas mágoas e voltava pra dentro, com ombros baixos e nós na garganta.
A menina varria suas folhas, devolvia ao ambiente suas cores originais. E enquanto varria, tagarelava sobre as pessoas que passavam, sobre seus sonhos, sobre os programas de tevê. O carvalho não respondia, e a menina continuava varrendo.
Ela olhava pros altos galhos do carvalho, imaginando se ele se curvaria pra que ela pudesse abraçá-lo, já que seus braços curtos mal fechavam o tronco. Ficava horas naquela súplica silenciosa, mãos geladas na casca grossa do carvalho, enquanto seus galhos pareciam cada vez mais altos.
E de tanto varrer suas folhas, suas mãos ficaram calejadas; De tanto abraçar seu tronco, seus braços machucados; De tanto implorar pelo amor do carvalho, seu coração em pedaços.
E quanto mais a menina suplicava, mais distante ficava o carvalho. Cada vez mais ele derrubava suas folhas, e cada vez mais altos ficavam seus galhos.
Até que a menina cansou de varrer suas folhas em vão, de buscar abraços que nunca vinham, de conversar com o gigante que nunca respondia. E resolveu ir embora.
E suas mãos ficaram macias; Seus braços sem machucados; Seu coração sem rachaduras.
Então o carvalho derrubou suas folhas como nunca, colorindo de amarelo rua, carros e pedestres. Seus galhos cresceram mais alto do que qualquer outra árvore na cidade. Sua casca ficou rígida e áspera, como nunca havia estado.
Mas a menina não estava mais lá.
E sem seu toque, o carvalho definhou.
Suas folhas não mais caíram.
E seus galhos vieram ao chão.

16 de fevereiro de 2011

Dismantle

Gota sobressalente;
Vermelho que sangra ligeiro;
Transborda.

Calor sólido;
Escorre por entre os dedos;
Gelados.

Sorriso enfileirado;
Lábios em meia-lua;
Contraem-se em linhas;
Escondem-se.

Pele eufórica;
Dedos se tocam;
Repelem-se;
Temerosos.

6 de fevereiro de 2011

Lilt

Eu me sentia selvagem e domesticada, e feita em pedaços e perdida entre tudo isso ao mesmo tempo. Pela primeira vez na vida, minha mente não divagou compondo uma letra de música nem guardou o momento para uma reflexão posterior.
Pela primeira vez na vida,
eu estava ali
e em nenhum outro lugar.

22 de janeiro de 2011

Fate

O futuro e o passado, idênticos um ao outro; neve depois verão, e depois neve outra vez.

10 de janeiro de 2011

Asas

Era uma vez um pássaro. Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, coloridas e maravilhosas. Enfim, um animal feito para voar livre e solto do céu, alegrar quem o observasse.
Um dia, uma mulher viu este pássaro e se apaixonou por ele. Ficou olhando o seu vôo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rápido, os olhos brilhando de emoção. Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em completa harmonia. Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro.
Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! E a mulher sentiu medo. Medo de nunca mais sentir aquilo com outro pássaro. E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássaro.
E sentiu-se sozinha.
E pensou: "Vou montar uma armadilha. A próxima vez que o pássaro surgir, ele não mais partirá."
O pássaro, que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha, e foi preso na gaiola.
Todos os dias ela olhava o pássaro. Ali estava o objeto de sua paixão, e ela mostrava para suas amigas que comentavam: "Mas você é uma pessoa que tem tudo." Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: como tinha o pássaro e já não precisava conquistá-lo, foi perdendo o interesse. O pássaro, sem poder voar e exprimir o sentido de sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio - e a mulher já não prestava mais atenção nele, apenas na maneira como o alimentava e como cuidava de sua gaiola.
Um belo dia, o pássaro morreu. Ela ficou profundamente triste, e vivia pensando nele. Mas não se lembrava da gaiola, recordava apenas o dia em que o vira pela primeira vez, voando contente entre as nuvens.
Se ela observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, não o seu corpo físico.
Sem o pássaro, sua vida também perdeu o sentido, e a morte veio bater à sua porta. "Por que você veio?", perguntou à morte.
"Para que você possa voar de novo com ele nos céus", respondeu a morte. "Se o tivesse deixado partir e voltar sempre, você o amaria e o admiraria ainda mais; entretanto, agora você precisa de mim para poder encontrá-lo de novo."

Onze Minutos

- Você está falando de amor como uma professora.
Maria resolveu falar, porque esta era a sua defesa, sua maneira de dizer tudo sem comprometer-se com nada:
- Quem está apaixonado está fazendo amor o tempo todo, mesmo quando não está fazendo. Quando os corpos se encontram, é apenas o transbordar da taça. Podem ficar juntos por horas, até dias. Podem começar a dança em um dia e acabar em outro, ou até mesmo não acabar, de tanto prazer. Nada a ver com onze minutos.
- O quê?
- Eu te amo.
- Eu também te amo.
- Perdão. Não sei o que estou dizendo.
- Nem eu.
Levantou-se, deu-lhe um beijo e saiu.