24 de maio de 2010
Cândidos amores
Carta de Amor
9 de maio de 2010
Don't belong
23 de abril de 2010
Pensar, pensar.

É estranho pensar em como as coisas funcionam. Como o coração não funciona em conjunto com o cérebro, ou como a racionalidade e a emotividade não dividem espaço. Estranho pensar em quão mais fácil as coisas seriam se houvesse um equilíbrio, um consenso.
A razão é certa, e a emoção insensata. O coração ama. O cérebro pensa. E é no pensar que todos buscam a confiança e a certeza.
Confiança. Não se pode confiar no que é inconstante. Pessoas são inconstantes. Ninguém tem certeza, ninguém pode constatar estabilidade. E mesmo assim, as pessoas confiam, e se decepcionam. E se antes o sentimento predominava, agora se esconde, com medo do possível sofrimento. E as pessoas mudam. E tornam-se racionais.
O pensamento de liberdade traz mais conforto do que o pensamento de pertencer a alguém, e então a solidão que se faz presente não parece tão ruim. O pensamento voa, buscando o pensamento de outro alguém, mas a racionalidade permanece, impedindo qualquer movimento que ponha em risco a tão almejada independência.
E enquanto a emoção impele para um gesto, um toque, uma palavra, o pensamento voa em direção contrária, negando qualquer tipo de intervenção não-racional. E o masoquismo despercebido parece seguro e verdadeiro, protetor de tão perverso sentimento que maltrata e cega.
E é quando você se depara olhando pra fora. Olhando pro sol e só vendo janela. Vendo os pássaros sem ouvir o canto. Vendo as flores sem sentir o perfume. É quando a racionalidade sai à procura de explicações lógicas e não encontra. E é quando você percebe que o inexplicável acontece, e que a saudade julgada impossível e inexistente, existe.
E então você julga as mudanças feitas erroneamente, as escolhas que trouxeram infelicidade e os erros cometidos. E você se arrepende. Arrepende-se por ter sido tão racional, por não ter se deixado levar pelo sentimento. E percebe que as coisas outrora tão sensatas, hoje parecem absurdas, e que a solidão antes reconfortante agora dá lugar ao vazio antes julgado impossível.
E como que num último gesto racional, põe-se a observar a chuva em silêncio, pressionando o nariz contra o vidro gelado e fechando os olhos. Imagina se poderia fazer o inesperado, se ainda conseguiria conter a insanidade, se seria tarde demais.
E então você pensa. Mais uma vez, você pensa.
25 de março de 2010
Contentamento descontente

Volubilidade. Uma palavra é o bastante pra fazer mudar de idéia. Um gesto, um momento. Palavras – tão sinceras - ditas olhos nos olhos, já não parecem tão sinceras assim. Gestos tão espontaneamente perfeitos, já não passam de simples gestos. Planos tão concretamente idealizados, já não passam de meros planos utópicos de outros dias. E as promessas – ah, as promessas- tão verdadeiramente esboçadas, tão fielmente aceitas, viraram lembranças lúcidas de um período de insanidade.
E o vazio. Onde antes habitava um sentimento tão grande e absurdo que já nem cabia mais lá. Tudo dá lugar ao vazio, triste e silencioso vazio que não guarda nada. E então vem o nó, que sobe pela garganta, sufoca, machuca, e faz marejar os olhos. As lágrimas. Tão grossas quanto as gotas de chuva no inverno. E as lembranças inevitáveis. O cd em cima da cômoda. O caminhar, que já é por si só suficiente pra trazer uma enxurrada de lembranças do que foi. A angústia que permanece, e ao mesmo tempo em que machuca, torna-se uma inquilina confortável, uma centelha do amor que já foi. Uma lembrança sentida, um pedaço do que partiu.
E então o não-amor, o desprezo, o desespero. Torna-se repugnante seu próprio reflexo. A comida não é como antes, a música não soa como deveria, os filmes, o sol, o vento, o tempo. Tudo muda, sem nada ter realmente mudado.
Tão contrário a si mesmo, o Amor.
O amor que choveu
Era uma vez um menino que amava demais. Amava tanto, mas tanto, que o amor nem cabia dentro dele. Saía pelos olhos, brilhando, pela boca, cantando, pelas pernas, tremendo, pelas mãos, suando. (Só pelo umbigo é que não saía: o nó ali era tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado).
O menino sabia que o único jeito de resolver a questão era dando o amor à menina que amava. Mas como saber o que ela achava dele? Na classe, tinha mais 15 meninos. Na escola, 300. No mundo, vai saber, uns 2 bilhões? Como é que ia acontecer de a menina se apaixonar justo por ele, que tinha se apaixonado por ela?
O menino tentou trancar o amor numa mala, mas não tinha como: nem sentando em cima o zíper fechava. Resolveu então congelar, mas era tão quente o amor, que fundiu o freezer, queimou a tomada, derrubou a energia do prédio, do quarteirão e logo o menino saiu andando pela cidade escura – só ele brilhando nas ruas, deixando pegadas de Star Fix por onde pisava.
O que é que eu faço? – perguntou ao prefeito, ao amigo, ao doutor e a um pessoalzinho que passava a vida sentado em frente ao posto de gasolina. Fala pra ela! – diziam todos, sem pensar duas vezes, mas ele não tinha coragem.
E se ela não o amasse?
E se não aceitasse todo o amor que ele tinha pra dar? Ele ia murchar que nem uva passa, explodir como bexiga e chorar até 31 de dezembro de 2978.
Tomou então a decisão: iria atirar seu amor ao mar. Um polvo que se agarrasse a ele – se tem 8 braços para os abraços, por que não 4 corações para as suas paixões? Ele é que não dava conta, era só um menino, com apenas duas mãos e o maior sentimento do mundo.
Foi até a beira da praia e, sem pensar duas vezes, jogou. O que o menino não sabia era que seu amor era maior do que o mar. E o amor do menino fez o oceano evaporar. Ele chorou, chorou e chorou pela morte do mar e de seu grande amor.
Até que sentiu uma gota na ponta do nariz. Depois outra, na orelha e mais outra, no dedão do pé. Era o mar, misturado ao amor do menino, que chovia do Saara a Belém, de Meca a Jerusalém. Choveu tanto que acabou molhando a menina que o menino amava. E assim que a água tocou sua língua, ela saiu correndo para a praia, pois já fazia meses que sentia o mesmo gosto, o gosto de um amor tão grande, mas tão grande que já nem cabia dentro dela.


