2 de julho de 2010

Peur

Há situações em que sabemos exatamente o que fazer. Quando a solução é um clichê efetivo, uma resposta universal. Todos respondem da mesma maneira à determinada situação sem nenhuma necessidade de reflexão prévia.

É quando acontece algo diferente, algo até então sem resposta. Algo que te deixa completamente desamparado, tentando buscar suas próprias soluções. Quando você tenta coordenar os sentimentos com pensamentos, deixando tudo tão bagunçado a ponto de te fazer perder a cabeça. Porque sentimentos são inexplicáveis, e disso nós sabemos. Mas ainda assim, tentamos encontrar racionalidade, porque temos medo. Medo de sentir, medo de perder o controle.

Medo de ser feliz.

22 de junho de 2010

Sobre amores e sonhos

Amor não é. Não se os dois não sentirem o mesmo. Prefiro que seja sonho. Do sonho você acorda, e logo as atividades rotineiras tratam de apagá-lo da memória. Do amor você não acorda, e tudo o que você faz reforça sua existência ao invés de apagá-la. Não, amor não pode ser. Recuso-me a amar sozinha. Sonhar sim. Voar sozinha nos sonhos, sem preocupar-me com o tempo ou espaço. Ninguém voa sozinho no amor. O peso da solidão é tanto que o vôo não vai longe, mesmo tendo as asas de um albatroz e o melhor dos ventos a seu favor. E a dor de cair é pior do que a dor de não poder voar.

20 de junho de 2010

Sentimento Atemporal

Sobre os dias ensolarados, quando o acordar torna-se algo totalmente prazeroso e o dia parece a melhor coisa que poderia acontecer. Quando o bom-humor faz desejar bom dia a qualquer coisa andante que cruzar o seu caminho, e quando o simples fato de olhar-se no espelho faz arrancar um amplo sorriso dos lábios semicerrados, seguido de algumas lágrimas bobas e uma auto-repreensão, lembrando-se de reservar as lágrimas para a tristeza. São os dias em que tudo ganha as mais incríveis combinações de cores, quando a música soa absurdamente perfeita e o café consegue confundir os sentidos, fazendo o paladar sentir sua escuridão, o olfato sua amargura doce e a visão seu cheiro inconfundível. Quando sua presença torna-se palpável em cada coisa. Um segundo de distração é o suficiente pra que sua imagem ocupe completamente os pensamentos, fazendo viajar pra longe, tornando tudo inacreditavelmente perfeito. É quando se depara esquecendo-se de respirar, derrubando o café na roupa e espantando o gato que deitava confortavelmente. E mais uma vez, ri pra si mesmo, voltando seu pensamento à sua distração.

- “Talvez eu goste de você” - suspira, enquanto toma um gole de café e perde-se em pensamentos.

E então chegam os dias de tempestade. Quando acordar é torturante e o dia parece um infortúnio sem tamanho, algo incrivelmente lento e sem previsões de terminar. O espelho é agora deprimente, e as lágrimas refletidas não remetem felicidade. A música torna-se barulho insuportável, a neblina chuvosa deixa tudo ridiculamente opaco e sem cor. O café é intragável, nenhum sentido parece corresponder às prévias apelações do líquido escuro. Quando a única forma de passar o dia é deitar na cama e esperar os sonhos levarem tudo embora. E quando os sonhos demoram a vir, chegam as lágrimas inundando travesseiro e lençóis. Todos os pensamentos dirigem-se incessantemente à causa de tamanho desalento, tentando encontrar respostas nas subjetividades e entrelinhas. A melancolia nunca pareceu tão traiçoeira. A amiga de outrora era agora insuportável, apunhalando seu coração a cada palavra e pensamento, envenenando com lágrimas suas esperanças.

Se é o inverno, que se diverte espalhando o frio nos jovens corações inseguros, se é a desassossegada solidão, sempre implacável. Se é a insegurança que se torna sempre presente, se é a realidade associada à intuição. Se é por pensar demais, ou por sentir demais, não se sabe.

Talvez sejamos apenas nós, em toda nossa bipolaridade infindável.

24 de maio de 2010

Cândidos amores

Eu da morte as angústias e os horrores
Por mil vezes sem morrer tolero.

Pelo Céu, por teus olhos te assevero
Que ferve esta alma em cândidos amores;
Longe o prazer de ilícitos favores!
Quero o teu coração, mais nada quero.

Carta de Amor

Amo-te doidamente e quero-te também que nem me atrevo a desejar que em ti se renovem arrebatamentos iguais aos meus. Morria ou acabaria por morrer de mágoas se estiver certa de que não podias ter descanso, que a tua vida era só desassossego e desvairo, que passavas o tempo a chorar e que tudo te causava desgosto. Se mal posso com as minhas penas, como aguentaria a dor de ver as tuas, que sinto mil vezes mais? [...]
Parece-me que falo demais no estado deplorável que me encontro. No entanto, do fundo do coração te agradeço o desespero que me causas, e detesto a tranquilidade em que vivi antes de te conhecer.

9 de maio de 2010

Don't belong


When all that you wanted and all that you have don't seem so much
For you to hold on to
For you to belong to
...

23 de abril de 2010

Pensar, pensar.

É estranho pensar em como as coisas funcionam. Como o coração não funciona em conjunto com o cérebro, ou como a racionalidade e a emotividade não dividem espaço. Estranho pensar em quão mais fácil as coisas seriam se houvesse um equilíbrio, um consenso.

A razão é certa, e a emoção insensata. O coração ama. O cérebro pensa. E é no pensar que todos buscam a confiança e a certeza.

Confiança. Não se pode confiar no que é inconstante. Pessoas são inconstantes. Ninguém tem certeza, ninguém pode constatar estabilidade. E mesmo assim, as pessoas confiam, e se decepcionam. E se antes o sentimento predominava, agora se esconde, com medo do possível sofrimento. E as pessoas mudam. E tornam-se racionais.

O pensamento de liberdade traz mais conforto do que o pensamento de pertencer a alguém, e então a solidão que se faz presente não parece tão ruim. O pensamento voa, buscando o pensamento de outro alguém, mas a racionalidade permanece, impedindo qualquer movimento que ponha em risco a tão almejada independência.

E enquanto a emoção impele para um gesto, um toque, uma palavra, o pensamento voa em direção contrária, negando qualquer tipo de intervenção não-racional. E o masoquismo despercebido parece seguro e verdadeiro, protetor de tão perverso sentimento que maltrata e cega.

E é quando você se depara olhando pra fora. Olhando pro sol e só vendo janela. Vendo os pássaros sem ouvir o canto. Vendo as flores sem sentir o perfume. É quando a racionalidade sai à procura de explicações lógicas e não encontra. E é quando você percebe que o inexplicável acontece, e que a saudade julgada impossível e inexistente, existe.

E então você julga as mudanças feitas erroneamente, as escolhas que trouxeram infelicidade e os erros cometidos. E você se arrepende. Arrepende-se por ter sido tão racional, por não ter se deixado levar pelo sentimento. E percebe que as coisas outrora tão sensatas, hoje parecem absurdas, e que a solidão antes reconfortante agora dá lugar ao vazio antes julgado impossível.

E como que num último gesto racional, põe-se a observar a chuva em silêncio, pressionando o nariz contra o vidro gelado e fechando os olhos. Imagina se poderia fazer o inesperado, se ainda conseguiria conter a insanidade, se seria tarde demais.

E então você pensa. Mais uma vez, você pensa.