10 de janeiro de 2011

Asas

Era uma vez um pássaro. Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, coloridas e maravilhosas. Enfim, um animal feito para voar livre e solto do céu, alegrar quem o observasse.
Um dia, uma mulher viu este pássaro e se apaixonou por ele. Ficou olhando o seu vôo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rápido, os olhos brilhando de emoção. Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em completa harmonia. Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro.
Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! E a mulher sentiu medo. Medo de nunca mais sentir aquilo com outro pássaro. E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássaro.
E sentiu-se sozinha.
E pensou: "Vou montar uma armadilha. A próxima vez que o pássaro surgir, ele não mais partirá."
O pássaro, que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha, e foi preso na gaiola.
Todos os dias ela olhava o pássaro. Ali estava o objeto de sua paixão, e ela mostrava para suas amigas que comentavam: "Mas você é uma pessoa que tem tudo." Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: como tinha o pássaro e já não precisava conquistá-lo, foi perdendo o interesse. O pássaro, sem poder voar e exprimir o sentido de sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio - e a mulher já não prestava mais atenção nele, apenas na maneira como o alimentava e como cuidava de sua gaiola.
Um belo dia, o pássaro morreu. Ela ficou profundamente triste, e vivia pensando nele. Mas não se lembrava da gaiola, recordava apenas o dia em que o vira pela primeira vez, voando contente entre as nuvens.
Se ela observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, não o seu corpo físico.
Sem o pássaro, sua vida também perdeu o sentido, e a morte veio bater à sua porta. "Por que você veio?", perguntou à morte.
"Para que você possa voar de novo com ele nos céus", respondeu a morte. "Se o tivesse deixado partir e voltar sempre, você o amaria e o admiraria ainda mais; entretanto, agora você precisa de mim para poder encontrá-lo de novo."

Onze Minutos

- Você está falando de amor como uma professora.
Maria resolveu falar, porque esta era a sua defesa, sua maneira de dizer tudo sem comprometer-se com nada:
- Quem está apaixonado está fazendo amor o tempo todo, mesmo quando não está fazendo. Quando os corpos se encontram, é apenas o transbordar da taça. Podem ficar juntos por horas, até dias. Podem começar a dança em um dia e acabar em outro, ou até mesmo não acabar, de tanto prazer. Nada a ver com onze minutos.
- O quê?
- Eu te amo.
- Eu também te amo.
- Perdão. Não sei o que estou dizendo.
- Nem eu.
Levantou-se, deu-lhe um beijo e saiu.

11 de dezembro de 2010

Hey

When I saw you last night, I wanted to say:
"Run away with me, away from these cynics"
That this could be the start of something truly real
But all that I could say was "hey".


1 de dezembro de 2010

Cócegas

Olhos fechados.
Os tons de caramelo se confundindo em seus olhos, em contraste com a pele pálida. Você murmura palavras inaudíveis ao passo que a mente viaja pra outra dimensão. O vento sopra de leve os cabelos escuros e o cachecol. Faz cócegas. O cheiro amadeirado do perfume invade meus pulmões à medida que um arrepio percorre minha espinha de cima a baixo. Suas mãos fechadas sobre as pernas, e o suéter levantado até os cotovelos, deixando à mostra as ramificações de veias azuis.
Luz acertando as íris em cheio. Olhos abertos a contragosto.
Realidade.
O pôr do sol refletindo arco-íris na janela. A cortina voa com a brisa chistosa. Cócegas.
O barulho das ondas beijando a areia toca os pensamentos, e embala o andar preguiçoso na irrepreensível trilha sonora. O cheiro de sal irrompe pela porta. Cheiro de felicidade.
Mar tremeluzente, olhos fechados por um segundo. Palavras inaudíveis, o caramelo se mescla em arco-íris. As mãos tocam as minhas, as ondas nos beijam os pés.
Olhos abertos ao toque gelado do oceano.
As ondas silenciam à medida que tua imagem se esvaece em fulgor.
Os cabelos castanhos voam ao sabor do vento, as pálpebras se fecham.
Teu cheiro amadeirado me toca os pulmões.
Os cantos dos lábios se contraem ligeiros.
Um suspiro.

Magique

- O que, se não amor?
- Mágica.

30 de novembro de 2010

Taciturno

O céu se franze conforme os ponteiros correm, enquanto o mundo gira ao contrário. As folhas dançam pesadamente acima de nossas cabeças, pesadas. Pensamentos escorrendo pelas ruas escuras, em companhia da chuva amarga - que cai impiedosamente, amargurando. Murmúrios preocupados nos ferem os ouvidos, ao mesmo tempo em que os pássaros sufocam e param de cantar. O ar parece mais denso do que o costume. Raios saindo pelos olhos, lendo nossas mentes ilegíveis, enquanto os lábios mudam de cor e se contorcem em sorrisos desbotados. Os dedos alcançam aos céus e tocam a lua, à medida que o chão cede sete palmos a cada expiração. As árvores retas e íntegras curvam-se e põem-se a chorar.
A cabeça lateja, o coração na boca.
Olhos ao chão. Protegendo-nos de nós mesmos.
Tudo muito tácito.

17 de setembro de 2010

Fix You


When you try your best, but you don't succeed;
When you get what you want, but not what you need;
When you feel so tired, but you can't sleep.
Stuck in reverse.

And the tears come streaming down your face;
When you lose something you can't replace;
When you love someone, but it goes to waste;
Could it be worse?