30 de novembro de 2010

Taciturno

O céu se franze conforme os ponteiros correm, enquanto o mundo gira ao contrário. As folhas dançam pesadamente acima de nossas cabeças, pesadas. Pensamentos escorrendo pelas ruas escuras, em companhia da chuva amarga - que cai impiedosamente, amargurando. Murmúrios preocupados nos ferem os ouvidos, ao mesmo tempo em que os pássaros sufocam e param de cantar. O ar parece mais denso do que o costume. Raios saindo pelos olhos, lendo nossas mentes ilegíveis, enquanto os lábios mudam de cor e se contorcem em sorrisos desbotados. Os dedos alcançam aos céus e tocam a lua, à medida que o chão cede sete palmos a cada expiração. As árvores retas e íntegras curvam-se e põem-se a chorar.
A cabeça lateja, o coração na boca.
Olhos ao chão. Protegendo-nos de nós mesmos.
Tudo muito tácito.

17 de setembro de 2010

Fix You


When you try your best, but you don't succeed;
When you get what you want, but not what you need;
When you feel so tired, but you can't sleep.
Stuck in reverse.

And the tears come streaming down your face;
When you lose something you can't replace;
When you love someone, but it goes to waste;
Could it be worse?

28 de agosto de 2010

Outubro

Lisboa, 2 de outubro de 2014

Meu querido,
Não pergunto como estás, pois não almejo receber notícias suas. Não lhe escrevo esperando qualquer resposta ou empatia, não. Mas imagino que durante muito tempo tenhas se perguntado por onde estive, se ainda era viva e por que havia partido daquela maneira. É por isso que me ponho a lhe escrever.
Por muito tempo tentei dar forma a esta carta. Não pense que achei justo ter te deixado na escuridão durante todos esses anos. A culpa é traiçoeira e corrói aos poucos. E se não lhe escrevi durante tanto tempo, não pense que foi por insensibilidade de minha parte, mas pelo simples fato de não saber como me dirigir a você depois de todos aqueles acontecimentos.
Há vezes em que, meu querido, por melhor que seja o que você tem, simplesmente não é o que você quer. Não quero que se culpe por minha infelicidade. Ninguém é culpado pelo que sentimos, exceto nós mesmos. E tenha certeza de que se eu pudesse escolher ser feliz com alguém, seria com você.
Algumas pessoas conseguem sossegar, serem felizes com outro alguém pelo resto de suas vidas. Meu querido, eu não faço parte dessas pessoas. A necessidade de voar para longe é mais forte que o desejo de ficar. Há tanto mundo pra se ver, afinal. E foi assim, migrando como um pássaro, que encontrei enfim a felicidade.
Peço que compreenda, que não te deixei por falta de sentimento ou consideração. Que meus votos por ti continuam em minhas memórias, e que não deixei de pensar-te por um segundo sequer.
Espero que um dia possas me perdoar, e que quando nos encontrarmos novamente, provavelmente em idade muito mais avançada, possas olhar-me nos olhos.
Com amor,
de sua querida.

12 de julho de 2010

Chico Buarque

Era desgostosa a vida que viviam. Eduardo, sempre comprometido com o trabalho, pouco tempo encontrava pra Maria, que ocupava seu tempo nas tarefas domésticas.
Eduardo trabalhava por ela, pra não deixar que nada nunca faltasse. Era esse pensamento que o mantinha firme e forte em suas intermináveis jornadas de trabalho.
Maria sentava-se chorosa na poltrona da sala, enquanto escutava "Eu te amo" de Chico Buarque na vitrola. Pensava que Eduardo não mais a amava, e por esse pensamento chorava uma vez mais.
E foi num desses dias, enquanto Maria lembrava dos bons tempos de outrora, que Eduardo chegou mais cedo. Foi Chico Buarque cantando os versos de Eu te amo no rádio de seu carro que o fez perceber o amor que escorria entre seus dedos.
Maria limitou-se a olhar em direção à porta, perdida em pensamentos. Foi quando Eduardo entrou com um sorriso no rosto, há tempos esquecido por ela.
Eduardo a abraçou, dizendo o quanto a amava e o quanto sentia sua falta. E então ele viu um sorriso maior que o mundo abrindo-se diante de seus olhos, e soube que era o homem mais feliz do mundo.
E saíram dançando. O abraço de Eduardo despertou nos dois o amor há muito adormecido. E dançaram, trotaram, rodopiaram ao som das doces notas imaginárias de Vivaldi. Os dois sabiam que a partir daquele dia, eles não eram mais um casal. Eram, pois, um só.

"Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir?"

3 de julho de 2010

Funny Little Frog


I’ll maybe tell you all about it someday.

2 de julho de 2010

Peur

Há situações em que sabemos exatamente o que fazer. Quando a solução é um clichê efetivo, uma resposta universal. Todos respondem da mesma maneira à determinada situação sem nenhuma necessidade de reflexão prévia.

É quando acontece algo diferente, algo até então sem resposta. Algo que te deixa completamente desamparado, tentando buscar suas próprias soluções. Quando você tenta coordenar os sentimentos com pensamentos, deixando tudo tão bagunçado a ponto de te fazer perder a cabeça. Porque sentimentos são inexplicáveis, e disso nós sabemos. Mas ainda assim, tentamos encontrar racionalidade, porque temos medo. Medo de sentir, medo de perder o controle.

Medo de ser feliz.

22 de junho de 2010

Sobre amores e sonhos

Amor não é. Não se os dois não sentirem o mesmo. Prefiro que seja sonho. Do sonho você acorda, e logo as atividades rotineiras tratam de apagá-lo da memória. Do amor você não acorda, e tudo o que você faz reforça sua existência ao invés de apagá-la. Não, amor não pode ser. Recuso-me a amar sozinha. Sonhar sim. Voar sozinha nos sonhos, sem preocupar-me com o tempo ou espaço. Ninguém voa sozinho no amor. O peso da solidão é tanto que o vôo não vai longe, mesmo tendo as asas de um albatroz e o melhor dos ventos a seu favor. E a dor de cair é pior do que a dor de não poder voar.